Julho 03, 2010

Valéria, Cap V - Revolver, Reverter.


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15:04. Quarto escuro, estava debaixo das cobertas. Acordei sem me lembrar muito bem desde quando estava dormindo. O relógio na minha mesinha de cabeceira piscava forte o número, era melhor levantar... Ao tentar mexer a cabeça, a dor provocada trouxe-me lembranças do que fiz ontem a noite... ou, bem, parte do que fiz... maldita bebida...
Enquanto lutava contra a ressaca e tentava, frustradamente, lembrar do que aconteceu na noite anterior, um braço tatuado contornou minha cintura e parou em meu tórax. Na tentativa de confirmar as falhas imagens criadas pelo meu cérebro, me virei lentamente para ver seu rosto. Era ele, pela quarta vez. Dormia comigo, pela quarta vez. Seu moicano estava torto. Suas tatuagens não pareciam mais tão más...

Isso deveria ir contra umas 15 das minhas regras para ser feliz... mas vê-lo dormir era ... tão... errado! Sim, errado. Não se é feliz assim. A quarta, aquela seria a última.
Levantei lentamente para não acordá-lo, obtendo sucesso. Andando pela casa encontrei pedaços de lembranças pelo chão... uma calça, um casaco, seus óculos, sapatos na entrada de casa. Algumas garrafas aqui e ali... isso não me trouxe lembrança alguma... me assustei com o tanto que deveria ter bebido.
Recolhi algumas peças. Sorri ao sentir o cheiro das roupas dele... Argh, sentimento bobo. Larguei tudo no sofá e fui na cozinha preparar um café. Café pra passar, leite esquentando, pão tostando na torradeira, mel, manteiga. Pratos, dois. Xícaras, duas...
Vesti uma calça jeans minha que encontrei por ali e sua camiseta do Jack Daniels que estava na cozinha, por alguma razão. Ouvia Talking Heads nos fonezinhos brancos que praticamente eram pregados aos meus ouvidos. Abri a porta e desci para pegar o jornal.
Encontrei alguns vizinhos. Alguns se chocaram com o estado do meu cabelo e meus pés descalços, outros só me cumprimentaram como se aquele fosse meu visual normal (talvez até fosse... repensei na minha semana e em como saia de casa quando estava com pressa).
Nunca imaginei que uma visita à caixinha do correio numa tarde de domingo pudesse ser tão trastornada. Catei o jornal e fui para cima... Domingos. Era a quarta vez que eles não eram deprimentes...
Abri a porta, entrei num passinho de dança ao ritmo da música. Ouvi uma voz, sem entender o que dizia. Tirei os fones com pressa e perguntei "desculpa, o que?"... e de lábios traçando um sorriso acolhedor, fez-se a pergunta...
- Quantos de açúcar no seu café?
A sensação de completo vazio racional dominou minha cabeça. A dor já tinha ido embora, estranhamente, mas o choque agora tomava conta. Estava sem camisa, suas grandes tatuagens a vista, uma mais admirável que a outra, calça jeans preta e aquele sorriso doce nos lábios...
- duas... é, duas...
- Manteiga e mel nas torradas, né? - mostrando o prato.
Sorri. Ele era diferente. Absurdamente esquisito. Senti um aperto ao saber que aquela seria a última vez e por um minuto amaldiçoei minhas regras e minha promessa. Fui ao banheiro amarrar a cabeleira que estava para criar vida... Olhei-me no espelho e perguntei-me se tais regras poderiam me fazer realmente feliz. Lembrei de tanta coisa em tão pouco tempo. Fiquei puta e na volta soquei meu saco de boxe, "presente" de um ex namorado...

Sentei na mesa, ele se aproximou e roubou um beijo, "já volto..." e de um dos fones brancos ouvi... Heaven is a place, a place where nothing ever happens.
Veja bem, Talking Heads é o tipo de banda que toca a música certa na hora certa, sempre.

Ele voltou, e em suas mãos havia uma pequena caixinha.
- Sei que vai ser meio aleatório, mas eu vi outro dia e pensei que você pudesse gostar... é um presentinho bobo, mas espero que você goste.
Quis perguntar-lhe porque gostava tanto de mim, porque estava comigo aquele dia, porque esteve comigo outras vezes, do presente, do café da manha, da torrada com a quantidade certa de mel e manteiga, do café adoçado perfeitamente... Mas fiquei quieta, sorrindo feito boba, feito criança apaixonada...
Abri a caixinha. Havia uma estatua minúscula de um gato preto, com olhos verdes.
- Você... gostou...?

Se ele estivesse sentado ao lado oposto da mesa, poderia dizer que pulei por cima de tudo para poder beija-lo, mas apenas tive que me arrastar por poucos centímetros para encontrar sua boca. Abracei-o sem falar, novamente. Percebi que até aquele momento ainda não havia dito nada, e suspirei um sim contra seus lábios.
Era um moço bom, bom de mais para mim. Agradeci, para falar mais alguma coisa, e fui para o quarto, todo fechado, ainda escuro... procurei entre as gavetas, alguma resposta, sem saber onde deveria colocá-lo, se apenas escondê-lo, se esquecer, se ama-lo, a tal estátua e ele.
Ouvi passos atrás de mim. Estava de frente para o armário e depois de segundos seus braços contornaram minha cintura, como no primeiro abraço, na primeira manha, do primeiro domingo... Beijou-me o pescoço e logo mais o resto. Puxou-me pelo braço, protegeu-me contra o mundo, como se fosse preciso. Eu já não mais pensava, e por um lado queria parar tudo, que o tempo parasse e eu pudesse ver o futuro, ver se valeria ou não a pena.
Eu sempre sonhei com mais, e de mais.
Acordamos no fim da tarde, o Sol se punha na janela da minha sala e, em seu colo, me levou para ver a noite dominar o dia.
E protegida de mim mesma, entre abraços e uma segunda feira de feriado, por entre meus pensamentos ecoava... Existem mesmo regras para se ser feliz...?

6 lost and found itens:

  1. Se eu disser que acordei me perguntando exatamente isso, vai parecer que eu tou mentindo. Mas não, juro.

    Se eu já tinha dúvida, vou dizer o que depois disso?

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  2. Que não existem regras pra ser feliz, que regras servem apenas pra te limitar e que nada, nada é previsível...
    nts, o ser humano adora complicar...

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  3. André4.7.10

    Se ela for como você, tendo regras irá fazer totalmente o oposto...
    Impressão minha, ou eu conheço 'ele'?

    :*
    amo você.

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  4. Neh Dé, né...

    tenho que parar de fugir de algumas regras, algumas ao menos...
    nts!

    amo você também.

    E sim, você conhece.

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  5. A regra pra ser feliz é fazer o que você quiser, sempre. A única que funciona!

    Me empolguei muito lendo o texto! Lindãooo!!!
    Parabéns, guria! :D

    Amo! Mil beijos!!!

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  6. É, se você não tiver compromisso com ninguém, pode fazer isso sim... Mas se tiver, complica...

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